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home >> notícias >> Joanópolis: A riquesa do folclore - 10/10/2009

O Folclore sendo a sabedoria do povo, a cultura do povo, abrange todos os campos da vida humana, incluindo os seus mitos e lendas, suas estórias, parlendas, advinhas e provérbios, seus contos e encantamentos, suas juras, pregões, xingamentos e gestos, de suas danças, seus teatros, suas artes, seus instrumentos e cantigas, seus tabus, festas tradicionais, crenças e crendices, magia, suas orações, seus brinquedos e seus jogos, suas técnicas populares, suas rendas, bordados, trançados, cestarias e sua cozinha. E para tornar-se folclórico ou “fato folclórico” há uma série de características próprias que devem ser levadas em conta. A primeira delas é o anonimato, isto é, não tem autor conhecido; a segunda característica é a aceitação coletiva, é a aceitação do fato pelo povo. O povo aceitando o fato toma-o para si, considerando-o como seu, e o modifica e transforma, dando origem a inúmeras variantes; a terceira característica é a transmissão oral, isto é, a que se faz de boca, pois os antigos não dispunham de outros meios de comunicação, vivendo aí toda a história daquele grupo, daquele povo; a quarta característica é a tradicionalidade não no sentido de um tradicional acabado, mais de uma força de coesão interna que define o modelo do conglomerado, da região, do povo, e lhe dá uma unidade. A tradição que é o modo vivo e atual elo no qual se transmitem os conhecimentos, não ensinados na escola, rege todo o saber popular; a quinta característica é a funcionalidade. Tudo quanto o povo faz tem uma razão, um destino, uma função. O povo nada realiza sem motivo, sem determinante estritamente ligada a um comportamento, a uma norma psico-religiosa-social, cujas origens talvez se perderam no tempo. Tornando-se então o fato “folclórico”, daí advém os mitos, as lendas e as crendices. Existem vários mitos folclóricos conhecidos por todos, dentre eles: o Saci-Pererê, o Lobisomem, o Boi-Tatá, o Negrinho do Pastoreio, entre tantos outros que fazem parte do patrimônio imaterial de uma determinada cidade ou região.

O MITO LOBISOMEM E SUAS ESTÓRIAS

Em Joanópolis este patrimônio imaterial é cultivado pelo mito do Lobisomem. Eis o que conta o folclore: Quando um casal tem sete filhos, todos do sexo masculino, precisa dar o mais novo para que o mais velho o batize, a fim de evitar que um deles se torne lobisomem (tratando-se de mulheres, uma será bruxa; se não for igualmente batizada pela irmã mais velha). Homens amarelos, pálidos e esquálidos (magricelos) são tidos como lobisomens. De quinta para sexta-feira é que, os que tem sina, viram lobisomem ou bruxa. Havia uma senhora que saiu com seu marido levando nos braços seu filho pequeno envolto num cuero de baeta vermelha. Depois de terem viajado alguns dias, seu marido lhe disse uma noite:“Olhe, fique com este cacete, caso algum animal a ataque, surre-o com pancadas”. E saiu dizendo que tinha necessidade de ir a um lugar perto dali. Não demorou muito e a mulher foi atacada por um cão muito grande. Defendeu-se, com bravura, quando vira que o cão atacou a criança envolta no cueiro. Com as cacetadas, conseguiu ferir o cão que ao sentir que seu sangue saia pela ferida fugiu. Ela percebeu que algum animal espojou-se por ali, e logo alguns minutos seu marido reapareceu com um ferimento no supercílio que sangrava. Ela cuidou dele, e foram dormir. No outro dia, quando estavam conversando a mulher percebeu que ainda restavam fiapos de cueiro entre os dentes do marido, e ficou sabendo que ele era lobisomem. Entretanto, porque tirara-lhe sangue com as cacetadas, o encanto fora quebrado e ele nunca mais se transformou em lobisomem. O lobisomem sai às sextas-feiras, e quando é gente branca, vira cachorro preto e quando é gente preta, vira cachorro branco e sai as noites de quinta-feira para comer fezes de galinha. Em caso de não encontrar um galinheiro, procura crianças para lamber-lhes os cueiros e fraldas. No entanto, eles só podem ser encontrados antes que o galo cante. Porque quando o galo canta, quebra todo o encanto, (temporariamente). Eis porque os caipiras deitam-se cedo e levantam-se após o galo cantar... estão evitando encontrar um lobisomem...

A ORIGEM DO MITO NA CIDADE

Este interesse foi despertado quando a folclorista Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima, defendeu sua tese de mestrado para a Escola do Folclore de São Paulo, tendo como tema o Lobisomem e como local de pesquisa, nossa cidade. Após sua pesquisa lançou o livro: “Lobisomem, assombração e realidade”, e foi o que bastou para atrair a mídia para Joanópolis. Veio então uma publicação de matéria no Jornal O Estado de São Paulo, em abril de 1984, de onde surgiu a alcunha de Capital do Lobisomem dada ao município. Mais tarde o mito veio a aparecer novamente numa rede de comerciais sobre folclore, do grupo McDonald´s, onde figuraram pessoas de Joanópolis falando sobre o Lobisomem; desta maneira criou-se a “Lobomania” e a Associação dos Criadores de Lobisomem, e também: os bonecos, os adesivos, as camisetas, os souvenirs, onde passando por nova metamorfose, o “Lobisomem Joanopolense” deixou de ser amaldiçoado para dar sorte, de mau passou a malandro, e de temido passou a amigo.

A CAPITAL DO LOBISOMEM

A partir da valorização do Lobisomem, várias ações vêm sendo desenvolvidas para a criação de produtos turísticos que possam atrair os visitantes e turistas a Joanópolis. Na Casa do Artesão encontramos camisetas, ímãs para geladeira, chaveiros, e as figuras do Lobisomem representando várias profissões, confeccionadas pelo artista Marcos Bueno. Outros produtos relacionados ao Lobisomem podem ser encontrados pelo município, como a cachaça “Repelente de Lobisomem”, vendida em alguns estabelecimentos comerciais, e até em um botequim localizado no caminho para o principal ponto turístico de Joanópolis, a Cachoeira dos Pretos, onde além dos mais diversos tipos de cachaças, é vendido o “Vinho do Lobisomem”. Há até um site oficial do mito: www.lobisomem.net, onde há estórias, caricaturas, e tudo o mais que dele interessa. Em datas especiais, são servidas as “Comidinhas de Lobisomem”, iguaria baseada na alimentação tropeira do século XIX, que nada mais é do que uma bela galinhada, feita no fogão de lenha, com sabor de tradição e história...

Segue a receita de tal iguaria:

RECEITA

Galinha ou frango em pedaços, lingüiça de porco, toicinho (bacon), arroz, cebola, alho, salsinha, cebolinha, sal e pimenta a gosto, óleo e água para o cozimento.

MODO DE FAZER

Lava-se bem a galinha com suco de limão para tirar o cheiro, depois corta-se em pequenos pedaços, tempera-se com sal e pimenta, colocando-se para fritar em tacho com óleo. Frita-se devagar mexendo sempre. A seguir coloca-se a lingüiça aos pedaços e o toucinho picadinho, continua fritando, colocando-se água aos poucos para não queimar. Quando estiver quase cozido, coloca-se a cebola e o alho para fritar juntos. A seguir coloca-se o arroz e a água quente para cozer, mexer sempre muito devagar para não grudar no fundo, provar o sal. Quando o arroz estiver quase cozido, coloca-se milho verde, cebola crua e cobre-se com papel de alumínio, durante uns dez minutos. Na hora de servir, colorir com salsinha e cebolinha por cima. Depois é só saborear o pitéu dos deuses.....

Bom apetite!


Por Walter Cassalho – Historiador Apostila de Folclore – Profª Neide Rodrigues Gomes

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